sábado, 1 de agosto de 2009
Would you go back to four weeks ago?
No salão impecavelmente branco, o que uma vez foi sólido se desmanchava lentamente, e eu, emissora fundamental da dor, era por ela a mais afetada.
Com as pernas mobilizadas e mãos suando, o silêncio pesava mais que as próprias palavras. Nós sabíamos exatamente o que estávamos dizendo, desafiando leis da física com nossa música sepulcral.
E justo eu, que sempre fora fria como o gelo, me via agora vulnerável a qualquer mudança climática, demonstrar sentimentos era o mesmo que elevar a temperatura.
Pensávamos no desmembramento de um grupo, e entre todas as palavras não ditas, sabíamos que aquela era a mais angustiante. Trancada para sempre, para que ninguém tivesse a audácia de usá-la, nem mesmo no silêncio impenetrável de um aeroporto.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Forever after days
A família era a típica. As conversas não variavam. Falavam sobre amor e estudos:
- Já arranjou um namorado?
- E faculdade? Já decidiu? Medicina?
Cada ano eu crescia dez centímetros e meu irmão ganhava peso. Éramos lindos, perfeitos, e quanto tempo hein?!
A ala masculina falava sobre a bolsa, ações.
Como qualquer um de nós, eu preferia estar em outro lugar, e apesar dos esforços que todos faziam para fingir que estavam se divertindo, o sentimento de tédio era o mesmo.
Mas a meia-noite, qualquer pensamento, promessa, ação, tudo se perdia. A vista do apartamento, direto para a praia, era um camarote para a queima de fogos.
O jogo de luzes que dançava no céu sem estrelas e a cidade iluminada, combinados com o cheiro de queimado.
A família era tediosa, mas era a família mais feliz do mundo.
A falta de assunto me fazia rir e minha vontade de estar em outro lugar era insignificante.
Naqueles quinze minutos de festa nós éramos felizes e nos amávamos. Por um minuto, nada importava.
Eu amava o ano novo.
sábado, 6 de junho de 2009
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

[...]Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
José Regio - Cântico Negro
